
Desde a criação da Vuelta a España em 1935, o ciclismo profissional conta com três corridas por etapas de três semanas no topo da hierarquia: o Tour de France, o Giro d’Italia e a Vuelta. Vencer cada um desses Grandes Tours ao longo de uma carreira coloca um ciclista em um círculo muito restrito. Apenas alguns nomes figuram nessa lista, e seu perfil conta tanto a evolução do ciclismo quanto suas qualidades individuais.
O que o palmarés dos triplos revela sobre as épocas do ciclismo
Poderíamos nos contentar em elaborar uma tabela de nomes e datas. A leitura se torna mais rica quando observamos em qual período cada ciclista completou seu triplo. Jacques Anquetil, o primeiro da história a ganhar os três Grandes Tours, construiu seu palmarés entre o final dos anos 1950 e meados dos anos 1960, em uma época em que a participação simultânea no Giro e no Tour na mesma temporada era comum.
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Felice Gimondi, Eddy Merckx e Bernard Hinault completaram o deles em décadas em que o calendário deixava mais espaço para um líder único dentro de sua equipe. Em contrapartida, os casos mais recentes (Alberto Contador, Chris Froome, Vincenzo Nibali) se inserem em um contexto onde as equipes distribuem seus líderes em vários objetivos, tornando a busca pelo triplo menos sistemática.
Para encontrar a lista dos vencedores dos 3 grandes tours com seus palmarés detalhados, o constatado é impactante: a maioria dos ciclistas envolvidos levou vários anos, às vezes uma década, entre seu primeiro e seu último Grande Tour conquistado.
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Vuelta a España: a porta de entrada para o triplo dos Grandes Tours
Um padrão se desenha desde meados dos anos 2010. A Vuelta, cujos percursos são considerados um pouco menos expostos na mídia do que os do Tour, serve como o primeiro Grande Tour conquistado por ciclistas que visam depois o Giro e o Tour de France. Chris Froome e Primož Roglič ilustram essa trajetória.
Froome venceu a Vuelta 2017 antes de se impor no Giro 2018, completando assim seu triplo. Roglič ganhou três Vueltas antes de se aventurar no Giro. Essa estratégia não é por acaso.
- O posicionamento da Vuelta no final da temporada (agosto-setembro) permite que seja alvo após um Tour de France corrido em apoio ou em preparação.
- A pressão midiática é menor do que no Tour, o que oferece um terreno mais favorável para as primeiras vitórias em Grande Tour.
- O perfil montanhoso espanhol, muito exigente, seleciona escaladores-roladores capazes de brilhar depois no Giro e no Tour.
A Vuelta funciona como um laboratório para os futuros vencedores das três corridas. O fenômeno inverso (vencer primeiro o Tour e depois descer para a Vuelta) era a norma entre os campeões dos anos 1960 a 1990.
Classificação UCI e calendário: por que o triplo se torna mais difícil
As modificações na tabela de pontos UCI ocorridas desde 2020 mudaram o cenário. As equipes, preocupadas com sua classificação mundial para garantir sua licença WorldTour, distribuem mais seus ciclistas ao longo de todo o calendário. Um líder único focado nos três Grandes Tours mobiliza recursos consideráveis sem garantir um retorno suficiente em pontos UCI nas outras corridas.
O resultado é concreto: construir uma carreira em torno da vitória nos três Grandes Tours não é mais um objetivo declarado pela maioria das equipes. Tadej Pogačar, que venceu o Tour e o Giro, continua sendo um dos raros ciclistas atuais cujo perfil tornaria o triplo plausível. Os dados disponíveis não permitem prever se ele almejará um dia a Vuelta com esse objetivo específico.
O peso econômico e simbólico do Tour de France ofusca o do Giro e da Vuelta. Algumas análises destacam que os patrocinadores e emissoras concentram sua atenção em julho, o que reduz o incentivo financeiro para correr os outros dois Grandes Tours como líder.
O triplo em uma única temporada: um feito quase desaparecido
Terminar os três Grandes Tours no mesmo ano (não necessariamente vencê-los, apenas terminá-los) representa um esforço físico que muito poucos ciclistas se impõem. Uma análise do Monde em 2017 listou 34 ciclistas que terminaram os três Grandes Tours na mesma temporada. Desde então, nenhum novo caso foi adicionado aos balanços UCI recentes.
Vencer os três no mesmo ano nunca foi realizado na era moderna. O calendário quase o proíbe: encadear Giro (maio), Tour (julho) e Vuelta (agosto-setembro) impõe cerca de quatro meses de competição no mais alto nível com muito pouca recuperação.

Perfil físico e tático dos vencedores dos três Grandes Tours
Os ciclistas que conseguiram o triplo compartilham um perfil comum. Nunca são especialistas puros: nem escaladores exclusivos, nem roladores de planície. Cada vencedor dos três Grandes Tours domina o contra-relógio e a alta montanha, duas disciplinas que determinam a classificação geral ao longo de três semanas.
Eddy Merckx acumulava vitórias de etapas além da geral. Hinault combinava potência no crono e explosividade na montanha. Contador se destacava por seus ataques imprevisíveis. Nibali se destacava nas descidas técnicas e em condições difíceis. Froome contava com um motor aeróbico fora do comum, apoiado por uma equipe construída ao seu redor.
A versatilidade continua sendo o denominador comum. Um ciclista que domina um único terreno não vence os três Grandes Tours, porque cada corrida oferece um equilíbrio diferente entre quilômetros de planície, montanhas e cronômetros individuais.
Quem ainda pode se juntar ao clube dos vencedores dos três Grandes Tours
A questão se coloca a cada temporada. Pogačar, já vencedor do Tour de France e do Giro d’Italia, só precisa vencer uma Vuelta. Roglič, três vezes vencedor da Vuelta e vencedor do Giro, ainda precisa ganhar o Tour. Jonas Vingegaard, duas vezes vencedor do Tour, deve mirar outro Grande Tour para entrar na discussão.
O número de candidatos credíveis permanece muito baixo a cada geração. As restrições de calendário, a especialização das equipes e o risco de lesão em corridas de três semanas limitam as tentativas. O triplo mantém seu status de feito raro, não porque o nível tenha caído, mas porque o ecossistema do ciclismo profissional empurra na direção oposta.